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Eleições e internet: o que fazer?

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Você talvez já tenha ouvido a expressão bottom-up, em inglês. Ela significa de baixo para cima. Faz menção a um modelo de comunicação de muitos para um ou de muitos para muitos, que emerge com a rede mundial de computadores.

 

Com as mídias eletrônicas de massa, o que tínhamos era um fluxo de informação de um para muitos, como a televisão. Você, sentado no sofá, e o Willam Bonner dizendo o que ocorreu no Brasil e no mundo.

Exemplo de atividade “de baixo para cima” é a Wikipedia, a enciclopédia colaborativa, em que todos podemos trabalhar para produzir um verbete melhor.

A campanha de Barack Obama foi um exemplo de uso dessa energia – que o teórico estadunidense Clay Shirky chama de excedente cognitivo – a favor da transformação social.

Segundo Ben Self, estratégista da campanha do atual presidente dos Estados Unidos, em entrevista à revista Meio Digital, “não fizemos mágica. Apenas dotamos o eleitor de poder voz e tecnologia. Eles fizeram o resto”.

Existem boas práticas de mobilização política – muitas delas extremamente utilizadas pelos partidos da esquerda no passado antes de se renderem a métodos fuleiros de marketing – que ganham ainda mais força com a rede.

“Ali (no portal de Barack Obama) o internauta encontrava todas as ferramentas que precisava para criar sua própria comunidade, organizar eventos, promover debates etc. Nosso objetivo primário nunca foi gerar tráfego para o site. Ao contrário, era fazer com que as pessoas, uma vez dotadas de nossas ferramentas digitais, nunca mais voltasse lá. Vital era que, na internet ou em sua comunidade na vida física, real, elas replicassem nossa mensagem, a mensagem de Obama. Foi assim que, a partir de um portal na web, chegamos aonde todos os eleitores norte-americanos, de fato, estavam” (Ben Self).

Candidatos vão se destacar se adotarem soluções tecnológicas simples que os ajudem a falar direto e sempre com as pessoas, de forma transparente e verdadeira.

Outras boas medidas são ouvir o que os cidadãos têm a dizer e usar isso a seu favor; estimular a militância espontânea e promover (com toda a força) o seu envolvimento no processo também sempre é positivo;

No mais, é ser capaz de inspirar e de propor a melhoria da vida das pessoas e não fazer concessões e alterações de discurso para diferentes públicos, porque na rede tudo está sendo visto.

Balanço sobre atividades realizadas em 2009

O jornalista Carlos Minuano me entrevistou, logo após o encerramento do Fórum da Cultura Digital Brasileira, para matérias na Folha e na Revista Brasileiros. Saiu uma coisa aqui e outra ali, mas isso é o menos importante. Nas respostas que escrevi para ele, tem um bom balanço de algumas coisas que andei fazendo em 2009, que pode interessar para quem quiser saber o que está rolando. Peguei essas respostas, dei uma ajustada ao contexto atual e segue abaixo.

1. Qual seu balanço do Seminário Internacional do Fórum da Cultura Digital Brasileira. Que avanços ele trouxe?
Superou expectativas. De 2003 para cá, houve alguns marcos importante no processo de criação, dentro do Governo Federal, dentro do Ministério da Cultura, de uma política para o digital. O principal, sem dúvida, foi o encontro de conhecimentos livres, no Piauí. Mas isso já estava muito distante. Esse encontro consolida um processo iniciado no fim do ano passado de dotar o país de uma nova institucionalidade para pensar as políticas culturais, de conhecimento, no século 21.

A cultura e o conhecimento não podem ser apêndices. São o centro de uma nova forma de desenvolvimento. Algo que precisaremos enfrentar para não repetir os erros cometidos durante o século 20 e que levaram o planeta para a beira do abismo. Acho que, nesse sentido, o encontro foi muito feliz, porque todos que dele participaram saíram maiores do que entraram. Agora, o processo segue, na rede social culturadigital.br.

2. Fale-me um pouco sobre a proposta do laboratório de cultura digital, quantos projetos reúne?
O Laboratório Brasileiro de Cultura Digital é uma ONG que fundamos em 2008. Agora, estamos consolidando o seu papel. A ideia é ser uma referência na sociedade civil para temas como cidadania em rede, cultura e tecnologia, apropriação das tecnologias para fins educacionais, transparência pública de governos e do mercado, entre outras questões que, poderia dizer, compõem uma agenda contemporânea.

Estamos desenvolvendo um projeto para levar cultura digital às cidades, aos gestores públicos locais, com financiamento da Fundação Ford. Também promoveremos o lançamento de um filme sobre ativismo, chamado 10 Táticas para Transformar Informação em Ação, uma iniciativa que o VJ Pixel está encabeçando, e estamos preparando uma série de novas parcerias.

Foi o Lab, como chamamos essa ONG, que promoveu o encontro Cibercultura 10+10, com patrocínio da CPFL Cultura.

O Laboratório é uma das instituições que compõem a casa da cultura digital, que é um espaço de co-habitação, de compartilhamento, que criamos em São Paulo, na Barra Funda. Nesse espaço, operam empresas e pessoas, dispostas a fazer coisas para o tempo em que vivemos.

Somos absolutamente independentes. Pagamos nossas contas com o nosso trabalho.

Na casa estão a FLi Multimídia, que é a minha empresa, com André Deak e Lia Rangel, o Laboratório, a Garapa, uma produtora multimídia com um trabalho fantástico, a Nunklaki, empresa de Pedro Markun, a Esfera, empresa que está promovendo os Hackdays da Transparência, o VJ Pixel, a Ong Veredas, a Maracá, a Beijo Técnico Produções Artísticas, produtora que organizou o Fórum da Cultura Digital Brasileira, o professor Sérgio Amadeu tem uma sala também. Tudo está indo muito bem. Difícil é trabalhar, com tanta gente interessante trocando informações e perspectivas o tempo inteiro

A casa tem sido usada como um ponto de referência, em São Paulo, para muita gente. A Abrafin e o Circuito Fora do Eixo já usam a casa como uma base na cidade, o pessoal do Partido Pirata já se reuniu lá, fizemos reuniões com o pessoal da Wikimedia, bom, a lista é enorme. Estamos abertos justamente para construir um ambiente para a criação compartilhada, coletiva e transformadora. Só não cabe, e nem poderia ser diferente, ranhetas na nossa vila.

Outra coisa que pretendemos fazer é uma ação para a região da Barra Funda, que vem se tornando um espaço vivo culturalmente na cidade, com enorme potencial.

Por isso mesmo, estamos acompanhando o reflexo das políticas higienistas do atual prefeito, que ao render-se aos especuladores na região central, está promovendo uma diáspora dos moradores de rua e viciados para outras regiões. Precisamos ter uma política para essas pessoas, tentar ajudá-las, e nisso, a nossa presença por ali pode contribuir em alguma coisa. Estamos conversando com outras organizações para bolar o que fazer.

3. Fale-me um pouco sobre o processo do forum cultura digital?

O processo começou a ser desenhado há dois anos, por mim, Cláudio Prado, Álvaro Malaguti, hoje na RNP, José Murilo Jr, Gerente de Cultura Digital do Ministério da Cultura e Alfredo Manevy, atual Secretário Executivo do Ministério, na época Secretário de Políticas Culturais. Era a nossa forma de organizar um ambiente institucional que levasse adiante essa temática após a saída de Gilberto Gil do Ministério da Cultura. Sempre a entendemos como algo central para o país. Essa era uma agenda que estava muito ligada à pessoa de Gil, que é um formulador, um entusiasta, da cibercultura. Com sua saída, a tendência era isso arrefecer, posto que a única área que existia, naquele momento, para promover políticas e projetos nesse campo era uma ação, fabulosa mas completamente intermitente, dentro de um programa voltado para os Pontos de Cultura.

Então iniciamos esse processo, para reposicionar o debate e fortalecê-lo, baseado em uma interlocução radical com a sociedade. O problema é que entre o planejamento e a realização desse projeto passou-se um ano. E então, a forma de fazer mudou um pouco. Coube à secretaria de Políticas Culturais do MinC, sob comando de José Herencia e José Murilo Jr, que é uma liderança fantástica, a condução política do processo.

Em junho deste ano, a Ministra Dilma Roussef anunciou o Fórum durante o Festival Internacional de Software Livre, o Fisl, em Porto Alegre. Naquele momento, subimos a rede social www.culturadigital.br para o ar e começamos a enviar convites para pessoas previamente mapeadas do governo, do estado, da sociedade civil e do mercado. No fim de Julho, fizemos o lançamento oficial do processo e abrimos a rede a todos os cidadãos interessados. Nessa ocasião, realizamos a primeira roda de conversa entre um ministro de estado, o Juca Ferreira, com blogueiros e produtores de mídias sociais. Também transmitimos o evento ao vivo e estimulamos a participação de pessoas em todos os estados, por meio de acompanhamento remoto.

Daí em diante, começamos a promover articulações e movimentações e a monitorar o que emergia da própria rede. Hoje temos, cerca de 3 mil participantes cadastrados. Vários grupos e blogues foram criados, e as conversas estão só começando. Também desenvolvemos essa plataforma pensando na integração das conversas, portanto, atualmente, indexamos e nos relacionamos com tudo que é produzido utilizando a tag #culturadigitalbr. No Twitter, o debate tem sido intenso. Agora, no Fórum, lançamos uma plataforma aberta para o upload de vídeos (http://video.culturadigital.br), baseada na ferramenta Kaltura, que permite inclusive o remix online de conteúdos.

Daí que chegamos ao Seminário Internacional. Com ele, descemos do ciberespaço para a atualidade, conversamos, muitas pessoas se viram pessoalmente pela primeira vez, e o que era de um certo tamanho cresceu. O trabalho dos curadores, que conduziram as articulações nos cinco eixos propostos: arte, comunicação, economia, infraestrutura e memória, já estão publicados.

Agora, em 2010, iremos começar o debate sobre um novo modelo institucional de gestão do Fórum. Queremos uma governança baseada em um conselho, eleito diretamente por um processo online (como ocorre com o Comitê Gestor da Internet), para tocar essa política.

Precisamos de novas instituições democráticas, de outra democracia, e estamos tentando realizar esse desafio.

O fato é que estamos sempre experimentando. O CulturaDigital.BR é uma plataforma experimental de mídias sociais e colaborativas voltada para o uso público. Nesse sentido, por exemplo, também fizemos testes usando uma nova tecnologia de vídeo, anunciada este ano pelo Firefox, que permite você fazer o streaming de um evento direto no browser. Não é mais necessário ter um software instalado ou um player em flash. Basta o browser. O Google Chrome e o Safari passaram a suportar essa tecnologia, que é o HTML 5.

Para fazer streaming desse jeito, utiliza-se o ogg theora, formato livre. É uma baita inovação. Nós já transmitimos o Seminário Internacional assim, para quem tinha alguma versão do Firefox 3.5 instalado, o que no nosso caso era a maioria dos nossos usuários. Quem conduziu todo esse processo foi o VJ Pixel, um dos integrantes da casa e um dos caras mais bacanas que conheço.

Por Rodrigo Savazoni - pai da Júlia e do Francisco, é ativista da comunicação livre e distribuída, gosta de falar sério, do palmeiras, do mundo civilizado e da noite indisciplinada. Faz tudo o que faz com a certeza de que está escrevendo um poema. Pode ser encontrado no seu site pessoal, o www.savazoni.com.br e em outros descaminhos da rede. Se quiser saber mais, pergunte ao Google.


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