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09/02/2010
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Home Colunas Coluna do Jomar A verdadeira inclusão digital: O Projeto Alice

A verdadeira inclusão digital: O Projeto Alice

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Quando participei em Outubro do Open Source World Conference em Málaga na Espanha, assisti a um painel muito interessante sobre Inclusão Digital, com participantes de governos de diversos países. Um dos únicos participantes que não era membro de governo era um ex-especialista em acessibilidade, paraplégico. Ele me disse ser ex-especialista pois após trabalhar tanto por diversos anos, viu que as coisas avançavam muito lentamente e desistiu da batalha.

Jomar SilvaDurante o painel, este senhor fez uma colocação muito contundente: “Quando se fala em Inclusão Digital ou Inclusão Social, todo mundo pensa na pobre criança africana, e se esquece dos milhares de deficientes que apesar de viverem no meio de nossa sociedade, são muitas vezes impossibilitados de se relacionar com ela. Este é o pior tipo de exclusão que se pode ter.”

Não que ele (e eu) consideremos que a criança da África não precise de ajuda, mas a indignação dele me chamou a atenção para um problema que lhes confesso que eu desconhecia sua abrangência. Imaginem como deve ser difícil para pessoas com deficiência se sentirem membros realmente incluídos em nossa sociedade se muitas vezes, os incluímos através de processos excludentes de fato, lhes permitindo interagir conosco dentro de um ambiente totalmente diferente do nosso (e ao qual muitas vezes nós não conseguimos nos adaptar).

No final de Outubro participei do Latinoware 2008 e lá tive uma lição de vida. Conheci um desenvolvedor chamado Clayton Lobato e num bate papo na sala de palestrantes foi nos mostrar uma foto em seu notebook. Quando o equipamento terminou de carregar o sistema operacional, um amigo brincou com ele e disse: “demorou prá carregar porquê não é Debian”. O Clayton sorriu e disse que estava usando o Projeto Alice, um sistema operacional desenvolvido para que pessoas com deficiência visual e pessoas sem deficiência alguma pudessem usar o mesmo sistema operacional, para que se promova a verdadeira inclusão digital e social. De forma curta e prática, se você for um deficiente e fizer o login no sistema, ele começa a falar com você e já possui todas as ferramentas que você precisa para trabalhar. Se não for, exatamente o mesmo sistema estará pronto para uso (ou seja, o mesmo sistema pode ser usado por deficientes ou não).

Começamos a conversar sobre o projeto, e ele nos contou que trabalha no desenvolvimento deste sistema desde que sua filha perdera a visão. Como tenho uma filha pequena, me senti tocado pela história e quis conhecer mais o sistema. Além de ter me lembrado da discussão sobre inclusão em Málaga, me lembrei ainda de um detalhe muito importante: Não existe vacina contra deficiência !!!

Todos nós estamos sujeitos a ter qualquer tipo de deficiência (visual, auditiva, motora e outras) causadas por um acidente qualquer em nossas vidas e portanto, qualquer um de nós pode ser um usuário do Projeto Alice... que tal colaborar com ele ?

Pensando nisso, contatei o Clayton para que ele nos contasse um pouco mais sobre o projeto e segue abaixo o nosso bate papo:

I. O que é o Projeto Alice ?

“O Projeto Alice é um Sistema operacional aliado a um conjunto de Métodos e Ferramentas que possuem como primícia a integração entre pessoas. Apesar de ter iniciado o Alice como um sistema operacional para deficientes visuais, percebi que seria impossível falar em inclusão, seja qual for, segregando as pessoas. Ainda há a possibilidade de aplicação dos mesmos conceitos para outras áreas, como deficientes auditivos, físicos, auxílio no desenvolvimento de raciocínio e fala, possibilitando ainda a adequação para o processo de alfabetismo.

Com isso, definimos o Alice hoje como uma possibilidade de incluirmos pessoas, desenvolvendo métodos e criando ferramentas que possibilitem a integração, seja de quem for, usando o mesmo sistema computacional.

Pode parecer audacioso demais, porém, o Alice tem como base 3 aspectos:

1. Dar acessibilidade real a uma pessoa com deficiência visual ao seu computador, possibilitando ações como configurar sua placa de rede, definir um comportamento novo para o sistema, verificar o conteúdo de seu pen-drive o que não era possível usando outras ferramentas. O Alice não é uma ferramenta que faz leitura de tela, ele é um sistema Operacional que permite a integração total de pessoas ao seu micro. As ferramentas proprietárias que possibilitam uma interação maior nos micros são bem caras, o que torna inviável o acesso a pessoas de baixa renda. Em meu entendimento, a grande maioria das pessoas com Deficiência Visual estará distante da realidade dessas ferramentas.

2. Permitir que pessoas, com ou sem alguma "necessidade" possam estar integrando o mesmo momento em salas de aula, equipes de pesquisa e o mais importante, usando o mesmo sistema operacional, bastando identificar-se por um login. O maior desafio do Alice tem sido integrar soluções que possibilitem este cenário. Deixar a responsabilidade de adaptação de toda uma estrutura operacional ao processo de login, tem sido nosso grande desafio e motivação. "Caso seja necessário algum tipo de adaptação, faça. Caso não seja , Não faço nada e me comporto como um GNU/Linux comum". Essa é a mentalidade do Alice.

3. Sonhamos com a possibilidade de termos no Alice equipes pesquisando e desenvolvendo tecnologias para pessoas com deficiência auditiva e física ainda para 2009. ”

II. Quando e por que você iniciou o projeto ?

“O projeto teve início em 2003 após ter descoberto que minha filha perdera a visão. Depois pelo amor que senti por todas as possibilidades que o Alice traria para um conjunto de pessoas esquecidas. Hoje o Alice é minha vida e temos desafios bem maiores. Nossa meta é transformar o Alice em um centro de pesquisa e desenvolvimento para tecnologias de inclusão real. ”

III. Em que status o projeto se encontra hoje ?

“A concepção do projeto está pronta. Hoje estamos criando o Instalador para deficientes poderem fazer suas próprias instalações, inclusive determinando novo conjunto de partições e os processos que isso envolve. Estamos trabalhando no Kernel pois nossa meta é que o Alice seja o mais leve possível, podendo ser usado por qualquer um que tenha uma máquina com 256 MB de memória RAM.

Por ter o conceito de interromperabilidade, pesquisamos a melhor maneira de desenvolver a distro para pen-drive nativo. Ou seja, em qualquer lugar do mundo uma pessoa que possua o Alice instalado no pen possa usar o mesmo para suas atividades, não sendo mais necessário instalação ou adequação de máquina. O Único processo a ser feito é o bootstraping do sistema pelo pen.

Outra melhoria que pretendemos é o processo de áudio, no caso de ajustes para deficientes visuais. Queremos que o Alice seja o mais próximo das ferramentas proprietárias possível.

Outro fator importante foram algumas ações desenvolvidas neste ultimo mês. Assinamos com a Universidad Tecnológica Intercontinental – UTIC, em Asunción, Paraguay, a carta de intensão para o desenvolvimento, ajustes e melhorias do Alice, aplicados a realidades locais, além do estudo de viabilidade de tradução para o Guarani. Temos ainda o processo que estamos desenvolvendo em Macapá, estado do Amapá, tendo como parceiros a Faculdade de Macapá e o CAP, Centro de Apoio Pedagógico para Educação de Deficientes visuais, passo importante para a evolução da educação especial. Com essas parcerias acreditamos no primeiro processo de inclusão que conhecemos entre Países, usando a mesma tecnologia, adaptada para as realidades locais.

Uma parceria importante em toda a nova etapa do Alice foi com o Everaldo Canuto, Novell. Ele nos liberou uma ferramenta que ajuda muito no processo de desenvolvimento do sistema, com muito mais dinamismo e continuidade. A nova versão do Alice está totalmente desenvolvida com essa ferramenta. Esperamos melhores resultados.

Tudo isso forma o Projeto Alice. ”

IV. Do que o projeto mais precisa hoje e como podemos ajudar ?

“Nossa, o Projeto necessita de tudo. Desde um local fixo para desenvolvermos, já que todo o desenvolvimento é feito por mim e mais 2 pessoas. Nos encontramos cada semana na casa de um para reuniões rápidas e objetivas. Precisamos de investimentos para termos uma equipe dedicada e isso nos daria a possibilidade de termos melhoras consideráveis no Alice. Todo o Projeto é desenvolvido por mim e pelos dois desenvolvedores de madrugada e em encontros semanais. Ainda temos nossos empregos e isso nos deixa em certos momentos exaustos sem condições de cumprirmos alguns prazos e nos limita nas possibilidades de participação de eventos para demonstrarmos o Alice e buscarmos parceiros. O projeto chegou a um ponto que dedicação é fundamental para a evolução do mesmo.

A forma como podem ajudar é simples.. O que sabem fazer ? Precisamos de toda a ajuda. Desde pequenas traduções, ajustes em sintetizadores, testes e avaliações mais precisas e confiáveis, pessoas que possam nos ajudar a desvendar novos universos como o universo de pessoas com deficiência auditiva, motoras e por ai vai.

Nosso sonho é que o Alice realmente se preocupe com pessoas e que possamos mudar, para um pouco melhor o universo delas.”

Na cerimônia de encerramento do Latinoware, uma garota com deficiência visual fez questão de subir ao palco para dar seu depoimento, pois acabara de conhecer o Projeto Alice. De forma resumida, ela agradeceu ao Clayton por ter lhe possibilitado com o sistema voltar a estudar tecnologia e utilizar de forma adequada um computador. Agora ela se sentia parte da sociedade novamente (não preciso dizer que o depoimento tirou lágrimas dos olhos de todos que estavam no auditório).

O site do projeto deve ficar pronto em Janeiro e quem quiser mais informações sobre o projeto e quiser ajudar o Clayton, pode contata-lo através do e-mail clayton.lobato @ gmail.com. Toda ajuda será bem vinda.

Se você ficou em dúvida sobre ajudar ou não o projeto, não se esqueça que ainda não existe vacina contra deficiência (e você pode estar ajudando a você mesmo daqui a algum tempo).

Feliz Natal e um 2009 cheio de liberdade e compartilhamento

para todos nós !!!

Por Jomar Silva -Colunista do Ada Digital.  Diretor Geral da ODF Alliance Chapter Brasil. Atua no mercado de TI desde 1996, com ênfase no desenvolvimento de software em projetos de Pesquisa e Desenvolvimento para empresas do setor de Telecom e Tecnologia da Informação. Atua ainda como "advisor" em padrões abertosjunto a indústria de software. É coordenador do Grupo e Trabalho na ABNT que trata da adoção do ODF como norma brasileira e foi membro da delegação brasileira em Genebra durante a BRM ( Ballot Resolution Meeting ) do OpenXML.


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